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Io sono italiano, capiche?

Conseguiu imaginar um maluco bigodudo gesticulando ferozmente com todos os dedos da mão direita unidos? Ma porco, Dio!

Embora meu sobrenome seja francês (pra quem não me conhece: Angry Sommelier, à disposição), meus pais nasceram no Brasil, meus nonos nasceram no Brasil, mas meus bisnonos e todos os tataranonos nasceram na Itália. Como bom italiano que sou, tenho todo o direito de italiano me considerar, então nem tente me dissuadir disso.

Bene, conto isso para chegar ao assunto principal que é o vinho de mesa. Aquele vinho que a sommeliers mais sensíveis a simples menção dos nomes aterroriza mais que a virada de cabeça da menina do Exorcista. CANÇÃO, DOM BOSCO, SANTA FELICIDADE, DO FREI. E para espantar geral… CHAPIIIIINHAAAAAAA. Bú!

Que atire a primeira taça quem cresceu bebendo Lafite.

Isso foi um som de taça espatifando?

Onde eu estava mesmo? Ah, sim, no começo.

Eu gosto de vinho de mesa, prontofalei. Agora podem confiscar minha carteirinha de sommelier.

Cresci bebendo vinho, como toda criança italiana. Na minha casa existia um parreiral repleto de periquitos de estimação que devoravam todas as uvas. E é por isso que hoje eu não sou enólogo.

Eu me sentava durante horas com meu nono, que me contava a história dos seus pais que ao chegar ao Brasil tentaram com todas as forças, como qualquer imigrante, preservar as suas mais caras tradições. Entre elas a comida e o vinho. E o Funiculi, Funiculá, infelizmente.

Eles tiveram que se adaptar àquilo que tinham em mãos. A polenta passou a ser feita com o fubá brasileiro e o vinho, com as uvas americanas. Também muito possivelmente foram eles que inventaram a sopa de pedra, haja vista as montanhas de Santa Catarina, doadas pelo governo ainda virgens e inférteis.

Virgem só não permaneceu minha bisnona, ainda bem. Era um filho por ano, colocado pra trabalhar nas montanhas rochosas assim que conseguisse juntar os dedos e gesticular “mamma!”.

Eles herdaram a terra em Santa Catarina quando ainda estavam no Rio Grande do Sul. Foram para lá de carroça, meu avô ainda pequeno, já com facão, abrindo a estrada onde a carroça (e depois bois, carros, asfalto) ia passar. Levavam consigo uma saca de cada tipo de alimento disponível e todo o vinho que puderam carregar. Tinham que chegar até sua cota de terra, plantar e colher antes que a comida das sacas acabasse.

Conseguiram, ou eu nem estaria aqui narrando a história. Plantaram a vinha, o milho e tudo o mais que as pedras permitissem. Criaram gado, casaram entre primos por pura falta de opção (o que tornou a rede de parental desses filhos bastante complexa).

Formaram uma comunidade que virou vila e virou cidade.

Cada vez que vou visitar o lugar me deparo com menos pessoas da família. Sobraram os retratos antigos, as casas de madeira caindo aos pedaços, alguns tios avós muito velhos cheios de histórias. E os parreirais, infelizmente não mais cultivados pelo nono, morto há mais de 20 anos.

Essa história é muito parecida com qualquer história de qualquer imigrante italiano que se instalou em qualquer lugar que tivesse o mínimo espaço de terra capaz de abrigar uma vinha. Foram eles que fizeram os primeiros vinhos brasileiros e o vinho que eles fizeram os acalentou, alegrou, aqueceu. Foi a partir desse vinho que todos os outros vieram, foi com ele que brasileiros não italianos aprenderam a beber. Foi por causa dele que hoje temos vinho de vitis européia. O vinho de mesa desbravou o caminho para que os vinhos finos trafegassem por essas bandas da mesma forma que meus bisavós abriram o caminho para Santa Catarina, para os meus avós, meus pais e eu.

Cada vez que visito os parantes tutto buona gente, sou recebido com abraços apertados, elogios à minha gordura e uma garrafa (as vezes pet) de vinho absolutamente comum.

Eles sequer conseguem pronunciar o nome da minha profissão, mas sabem que gosto de vinho e que o divulgo. Bebo com prazer o vinho de mesa, feito de vitis americana e não sinto nele o aroma “fox”, nem o considero “medíocre” ou ”imbebível”.  Sinto nele apenas os aromas da coragem, persistência, amor e dedicação que me trouxeram até ele novamente. Se hoje sou sommelier, devo isso a esse vinho, e pago com o respeito que lhe é devido.

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Meu tatatatataranono. Não duvide.