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Aos inovadores, segue a advertência: não leia esse texto enviado pela Gil Vesolli (agora acertei o nome!), lá de Aracaju.

“Um senhor idoso pede a carta de vinhos para a garçonete. Ela educadamente lhe entrega um tablet, que é a carta de vinhos eletrônica do restaurante em que trabalho.

Levei meses para criar essa carta e minha principal preocupação foi com a facilidade de uso, tendo em vista que nosso público principal são pessoas na faixa dos 40 anos ou mais, gente que, como eu, não cresceu com a tecnologia presente desde o berço.

Tenho certeza que consegui um bom resultado, já que a carta foi testada com muitas, muitas pessoas que nada entendem de tecnologia.

Sem sequer tentar usar a carta, o cliente me chama e diz que gosta de ‘escolher o vinho em uma carta, poder ver os países e tipos’”.

Minha cara amiga, minha paciência é infinitamente menor que a sua, então vou te interromper e lhe sugerir a melhor resposta ao pior comentário:

Me desculpe senhor, eu não tinha percebido que havia trazido as Tábuas da Lei no lugar da carta de vinhos.

Vai, num mundo perfeito seria possível dizer isso pro cliente insano.

“Em alguns cliques eu lhe mostrei os vinhos. Ele escolheu, eu peguei, entreguei para a garçonete servir e fui cuidar dos outros clientes, com aquela velha intuição que dizia que em breve ele me chamaria para dar palpites na carta.

Não tardou para acontecer.

Ele começou o discurso dizendo que embora seja nordestino, morou dos 4 aos 11 anos na Europa e que começou a beber vinho com 7 anos. Em seguida me perguntou com quantos anos eu comecei. Respondi que sou descendente de italianos e que como os pais dele, os meus avós também faziam vinho para beber e que eu devo ter começado a beber “suco de vinho” aí pelos 4 anos.

Para o meu espanto ele perguntou a minha idade, fez uns cálculos e disse que ele bebe vinho há 70 anos, portanto, muito mais tempo que eu”.

Opa, então era uma disputa e ele nem te falou? Que feio, meu senhor!

“Então o discurso continuou com ele dizendo que trabalha no mesmo ramo que eu, uma vez que é engenheiro civil e dono de um hotel (SIC). Não bastasse isso, afirmou com uma certeza científica que apenas pessoas da sua idade podem pagar por vinho e que ninguém nessa idade entende de tecnologia. Disse também que conhece o mundo todo e que jamais tinha visto uma carta de vinhos eletrônica, ‘nem na Europa’ e que portanto estávamos ‘exagerando na sofisticação’, uma vez que o Nordeste ‘não tem pessoas capazes de compreender ou apreciar essa sofisticação’. Fosse no Sudeste ou no Sul do país, haveriam ‘pessoas mais preparadas’”.

Profissões praticamente idênticas, quem é que não percebe? Isso fica claro no estudo sobre os grandes consumidores de vinho que ele promoveu em um mosteiro durante a Idade Média. Logo depois ele foi para o Nordeste brasileiro e encontrou apenas sertanejos mascando cactos, um cenário comum e atual.

“Ousei tentar argumentar com a lógica e fatos. Disse que houve uma grande preocupação de minha parte com o manuseio da carta e por isso mesmo ela havia ficado tão simples quanto folhear uma carta impressa, mas com infinitas outras vantagens que iam desde o aumento da fonte do texto (poucos idosos conseguem enxergar letras miúdas), a busca inteligente, diversa e intuitiva, ricos detalhes de cada rótulo, até a própria luminosidade do tablet, que facilita a visualização. Acrescentei que em quase seis meses de uso, apenas duas pessoas, contando com ele, haviam sentido dificuldades em lidar ela. E que muitas pessoas vão ao restaurante exatamente para conhecer a famosa carta. Também contei que abundam elogios sobre a carta e a inovação e modernidade que ela apresenta.

Então ele, não se reconhecendo derrotado, afirmou que eu estava apenas ‘vendendo meu peixe’ e que duvidava da veracidade das informações que lhe passei.

Sinceramente, nessas horas eu me pergunto pra que eu estudei e estudo tanto. Lembro das centenas de horas de leituras e pesquisas. Das noites mal dormidas e madrugadas em que passei acordada para criar a nova carta.

Todas as manhãs em que acordo para ir à faculdade, mesmo tendo trabalhado até duas ou três da manhã. Da dedicação à profissão e à vontade de ser melhor a cada dia, que foi traduzida naquela carta, resultado de todo esforço empreendido até agora.

Nessas horas eu não sei se choro, se xingo ou se saio correndo pelada pela rua coberta de gelatina verde”.

Interessante a última opção… Quem sabe se você acrescentar um cavalo ao delírio não acabe por se tornar uma Lady Godiva do vinho, hein, hein?

Não sou dono da verdade nem tenho respostas prontas, mas a minha experiência, e a sua também, com certeza, mostram que o senso comum de que o cliente sempre tem razão é uma  armadilha.

Por ter sempre razão, pessoas grosseiras e deselegantes como essa se acham no pleno direito de dar pitacos em assuntos que não entendem, ofendem e desfazem do trabalho árduo de pessoas como você e ainda reclamam se levam uma frigideirada nas fuças.

Força, minha cara! Nessas horas talvez o melhor mesmo a fazer seja lembrar dos muitos elogios.

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