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Começo o post advertindo que essa História Restaurantesca vai parecer mentira. Se eu não tivesse presenciado as cenas, confesso que acreditaria na veracidade dos fatos tanto quanto acredito na Mula Sem Cabeça ou no Silas Malafaia.

Durante o tempo em que estive cursando sommelaria, trabalhei em qualquer lugar em que eu pudesse aprender mais sobre vinho e ganhar o suficiente para pagar o curso e sobreviver de miojo. Um desses lugares foi um restaurante de comida mexicana cuja proprietária tinha também uma pizzaria.

Ela circulava pelo salão com todo o seu metro e quarenta e sotaque mexicano puxado, dando ordens em alto e bom som. O problema maior não eram as ordens dadas em alto e bom som para os funcionários, mas as ordens dadas em alto e bom som para os clientes.

Flagrei-a certa noite parada em frente a um casal, observando-os comerem a pizza com garfo, faca, bons e brasileiros modos. Quando o casal estava suficientemente constrangido para parar de comer e perguntar para o garçom se havia em seus dentes alguma folha de manjericão, ela chegou até o homem falando que “non, non é assim que se come pizza!”. Em seguida deu uma demonstração ao vivo de como a pizza deve ser comida: pegou a fatia no prato do chocado cliente, enrolou-a como a um cone e fingiu comê-la. Devolveu a fatia e saiu pisando fundo, indignada.

Sim, todas as pessoas presentes tiveram exatamente essa reação de incredulidade que você está tendo agora. Uns pediram beliscões, outros olharam ao redor pra ver se encontravam as câmeras e um repórter surgindo do nada e anunciando a pegadinha. O casal que foi vítima da mexicana que bateu a cabeça ao nascer, levantou da mesa indignado, depois de cinco minutos em que passaram tentando assimilar o que havia acontecido. Eu mesmo sequer consegui gaguejar um “boa noite, obrigado por terem vindo à Pizzaria no Fim do Universo”. 

E por mais surreal, bizarro, inacreditável e insano que pareça, essa não foi a única coisa surreal, bizarra, inacreditável e insana que ela já fez. As histórias são tantas que até fogem da memória.

Lembro que ela adorava cachorros e havia adotado uma cadelinha abandonada que rondava o restaurante mexicano. Frida tinha o privilégio de entrar quando quisesse e o melhor sofá da melhor mesa era dela, que ameaçava morder qualquer cliente atrevido que ousasse sentar ali.

Eu, como todos os outros funcionários do restaurante, jantávamos no lugar e nosso jantar era, invariavelmente, arroz com ovo. Uma vez ao mês ela pegava os produtos já vencidos do restaurante e ela própria cozinhava para nós uma sopa.de sopa. As misturas presentes nessa sopa fariam inveja a qualquer chinês.

Frida também tinha um cardápio fixo: filé alto, mal passado, que ela mesma servia, certamente com medo de que algum funcionário trocasse seu prato pelo da cadelinha. Um dia ela (a proprietária, não a cadela) mandou o filé voltar porque não estava no ponto pedido.

Nos dias em que haviam músicos tocando, ela lhes cobrava couvert artístico e mandava-nos servir a eles diversos petiscos e bebidas que depois eram descontados do cachê. Os clientes elogiavam a variedade de músicos que passavam pelo lugar.

Numa ocasião havia uma enorme fila de espera na pizzaria. Percebendo que um casal já havia pagado a conta, ela chegou até a mesa com uma suspeita delicadeza para perguntar se a comida estava boa, se eles haviam sido bem atendidos e se estavam satisfeitos. Depois de receber sorrisos e obrigados felizes dos clientes ela disse “que bom! Então agora vocês já podem levantar e ir pra casa, non?”

Não permaneci por muito tempo nesse emprego, mas ainda hoje sinto calafrios ao lembrar das histórias. A última notícia que tive da minha ex patroa foi que os restaurantes foram vendidos e ela passou a exercer sua outra profissão: psicóloga.

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