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Foi um truque sujo, confesso. Foi só pra te atrair até aqui. E espero não ter que falar que foi por razões mais perversas ainda como cutucar jornalistas sensacionalistas e aumentar as visitas do blog. Não tem vinho grátis não, cara!

Mas leia isso daqui já que está à toa mesmo.

Imagine a cena.

O cliente entra numa daquelas lojas de roupas caras e compra um paletó. Leva para casa, usa no casamento do sobrinho e no dia seguinte volta na loja e diz que quer devolver a peça porque descobriu que não gosta de xadrez.

Ou então o sujeito chegando ao dentista e dizendo “pô, eu fiz um tratamento de canal, custa aí liberar de graça uma obturaçãozinha? Só uma!”.

Ou ainda o sujeito esbravejando na locadora (se é que isso ainda existe) e dizendo que não vai mais voltar porque não gostou do final de Crepúsculo.

Sim, são cenas impensáveis, ridículas e surreais. Pelo menos em lojas, consultórios e locadoras. Em restaurantes, os mesmos clientes que jamais fariam coisas assim em outro tipo de comércio passam por algum tipo de mutação assim que sentam nesses lugares.

Ao longo da minha infortuita carreira vi coisas dantescas (a parte infernal obviamente) acontecerem.

Diversas vezes é tragédia anunciada. Como no caso das anchovas.

Anchovas são sardinhas metidas a besta. Tem um sabor forte, do tipo me ame ou me deixe. Ou seja: não é pra qualquer um. Mas por alguma razão que ignoro as pessoas tendem a pedir algum prato com anchovas. Talvez o nome soe bem, talvez lembre a mãe bigoduda ou seja algum tipo de doença mental. Ou talvez tenha a ver com o processo de transformação de clientes comuns em clientes-problema-do-coitado-do-sommelier. O fato é que pedem. E se arrependem. E saem com coisas como essas, invariavelmente:

a)      “Essa anchova está estragada!”

b)      “Isso não é anchova!”

c)       “Claro que eu já comi anchova antes!”

Depois de uma dessas frases ser dita é impossível qualquer diálogo. O cliente vira uma criança birrenta que ignora provas de que não há nada de errado com o pobre peixe. Simplesmente admitir que não gostou e apenas pedir outro prato, jamais vi acontecer.

Já os pidões são um problema recorrente. Qualquer infeliz trabalhador de restaurante já passou por uma situação constrangedora em que o cliente pedinte quer levar pra casa desde o cardápio até a placa luminosa do lugar.

Pior que o Cliente Pedinte só mesmo o Cliente Pedinte Ofendido.

Esse tipo costuma chamar o maitre, o sommelier ou o gerente (no meu caso eu, eu ou eu), esfregar a conta paga na cara da vítima e dizer em alto e bom som a fatídica frase

“Eu gastei [coloque aqui o valor que quiser] reais, então eu quero uma cortesia!”

Definitivamente, ele não sabe o significado da palavra cortesia. Se não fosse descortês eu lhe esfregaria na cara um dicionário, na página do verbete.

Quando a recusa da exigência vem ou ele não considera o brinde à altura dos reais que ele gastou e que serão certamente suficientes para sustentar o restaurante até o seu retorno, se ofende. E então começam os xingamentos.

Já passei por situações desse tipo que seriam cômicas não fossem comigo. Esfregaram-me na cara contas desde vinte até mil reais e sentiram-se ofendidos por eu dar como cortesia forçada desde uma taça de espumante a uma garrafa de champagne.

Ou por negar pela razão mais óbvia que é o prejuízo ou a falta de bom senso do pedido. Já houve um caso em que o cliente queria nada menos que pagar um prato e levar outro pra casa, de graça. Por pouco não leva comida envenenada.

Mais uma situação nonsense entrou para a História que será contada pelos meus netos é essa:

Ao levantar da mesa o cliente me disse que jamais, JAMAIS voltaria ao restaurante. O motivo? Ele “nunca havia bebido um vinho tão ruim”em toda a sua vida.

Aposto também que ele queria que a Bella tivesse ficado com o lobinho.

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