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“Você ganha dinheiro fácil”

Claro que isso me foi dito por um garçom.
O rapaz é aquele tipo de pessoa que não se beneficiou de uma culta, fácil e regrada vida de estudos e defende apenas o trabalho braçal, como se um trabalho puramente intelectual como o meu não fosse digno.
O Capitão defendeu seu ponto de vista dizendo que summaliê nunca teve que pegar no pesado, então não deveria ganhar mais que ele.

Mas como estou ficando civilizado, antes de bater nele com uma frigideira de ferro expliquei pro tipo que mesmo não tendo feito esforço algum pra me tornar o que sou hoje, sou digno do salário que recebo. Ou seja, narrei a minha vida boa pra ele.

Contei que enquanto fazia o curso de sommelaria mais longo da História, com agradáveis professores-sabe-tudo, eu trabalhava num ambiente ainda mais agradável, onde os queridos colegas de trabalho colocavam chumbinho no copo de cerveja dos outros colegas durante as festas de final de ano.
Recebia do meu estimado patrão, que não queria nada em troca além de centenas de horas extras mensais, uma ajuda de custo justíssima para fazer o curso.
No final do expediente, que terminava por volta da meia noite, lá ia eu fazer minha corrida diária até em casa para ser amigo da natureza e economizar no transporte. Sempre achei que um assalto iminente é uma excelente motivação para manter a forma física.

Depois da corrida estimulante, praticada em trajes adequados de pinguim, eu ia para meu amplo quarto alugado com uma belíssima vista para a rua mais movimentada da cidade. Os suaves sons das buzinas embalavam minhas noites despreocupadas.

As minhas refeições eram algo espetacular! E variavam muito. A cada dia eu tinha a chance de experimentar um tempero diferente de miojo. E pelo menos três vezes na semana eu jantava fora. A lavanderia recebia um ar fresco e se eu sentasse sobre a lavadora e esticasse o pescoço poderia jantar à luz da lua vista logo atrás do outro prédio.

Comprar os livros necessários para o meu aprendizado era enormemente divertido, além de ser um ótimo exercício de matemática (340 reais divididos em 18 parcelas no cartão dá…).
Le nez du Vin caríssimos, assim como os Bordeaux mais premiados sempre fizeram parte da adega do dono da escola.

As importadoras de vinho me ignoravam singelamente, não enviando nenhuma amostra. Eu não era perseguido por oportunidades de estágio dos melhores restaurantes de São Paulo. Chegava a ser chato tanta falta de assédio.

Lá pelo 375649° semestre, quase no final do curso, recebi uma ótima proposta de trabalho. Eu ia poder trabalhar diretamente no carregamento de caixas de vinho em uma desconhecida loja!
O salário seria menor, mas meu futuro patrão deixou claro sua generosidade me deixando continuar o curso.

A distância entre meu lar doce lar e o novo emprego era grande demais e minhas coxas atléticas já estavam superdesenvolvidas. Então resolvi que o melhor era ir de ônibus, afinal de contas eram apenas dois mais um metrô.

Doze horas de trabalho por dia de segunda a segunda carregando caixas me fizeram aprender muito sobre vinho. Descobri que cada garrafa consome 1kg de uva, por exemplo.

Mas quando eu me formei – devendo apenas 15 mensalidades – é que fiquei ainda mais tranquilo. Tive o prazer de trabalhar em grandes restaurantes com chefs de cozinha psicopatas, garçons com tatuagens de presídio e maitres traficantes de cotovias.

Mas apesar de eu ser um filhinho de papai que bebeu muito durante a aula e repetir “você sabe com quem está falando?” para meus professores, só pra ver eles bambearem as pernas, eu também aprendi. Sei até falar CABERNÊ SUVINHÔN com sotaque e tudo.

Quando fiz a faculdade a coisa continuou na moleza de sempre. Apenas troquei “corrida” por “corrida de bicicleta”.

Contei isso tudo, depois mandei cortar o vale transporte do mancebo. Ele nem precisou agradecer pela iniciativa que tive de lhe mostrar um pouco da minha boa vida. Depois peguei a frigideira.

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